(ou como Jorge Silva Melo se confessa como filho do século)
Estava eu longe de imaginar de ver alguma vez a peça (digo “a” porque é de facto, a mais interessante de Musset, pois nela entrevemos o seu amor intempestivo com George Sand) de Alfred de Musset (1810-1875), quando o meu querido Professor Álvaro Manuel Machado o referia vezes sem conta a propósito de Romantismo, nos seminários de Literatura Comparada da Nova, onde nos interessava especialmente os "Contos de Espanha e Itália".
Agora, Jorge Silva Melo oferece-nos este texto magnífico numa altura em que inaugura casa nova (sem cheiro a cantina velha nem a tinta de reprografia), num Príncipe Real descabelado: cortaram-lhe as árvores e os passeios não são à portuguesa. Porquê esta peça agora e ali? E porque é que questiono?
Como ninguém me responde, faço como na infância: intuo. Vamos à primeira fase de argumentos: JSM é um dos homens mais inteligentes e cultos do país; Alfred de Musset rompeu com os moldes da Escola Clássica francesa de teatro; o Príncipe Real está a perder a sua marca romântica (aliás, fiquei a saber que havia ali um salão de donzelas para convívio, frequentado regularmente por Cesário Verde, local onde escreveu alguns dos seus poemas, nomeadamente, "Piquenique"), o teatro português perdeu relevância estética… Segunda fase: aquilo a que chamam teatro contemporâneo, de carácter híbrido, "desartificado" (o termo é de Chomsky; significa que já nem sequer é não-arte), está paulatinamente a perder a sua substância estética: tal como o Príncipe Real; "A confissão de um filho do século", de Musset, é um prolongado amuo contra o seu tempo, um profundo pesar pela leviandade com que se usa a palavra e o pensamento: tal como JSM sugeriu numa recente conferência de imprensa; o amor é infantil, pelo que nunca deverá submeter-se a compromissos (as crianças não assinam contratos nem têm filhos): tal como acontece nos dias de hoje e que muita discussão tem gerado.
O amor importa, então. Importa também conservar esta marca de loucura dos seres humanos, porque é pela loucura que agimos e somos, de facto.
Assim, não podemos refutar a primeira premissa: JSM é um dos homens mais inteligentes e cultos do país; nem as seguintes. Interessa-me a última: a relevância do teatro para a nossa época, para poder confessar que o que tenho visto, na maioria, nos mais recentes anos, angustia-me. Não pela mistura de linguagens, não pela vaidade de alguns actores em palco, não pelos subsídios atribuídos a alguns canastrões, não pela escolha das peças, não pelo anseio em tornarem-se poder, mas pela abordagem serôdia e burguesa que fazem da arte de representar: esvaziam-na de sentido. Isto, quando não “importam” êxitos de outros países para entreterem um público que raramente sai de Lisboa e que raramente sabe dizer onde fica a Biblioteca Nacional. E que gosta muito de barulho, de velocidade e de uma vida mental que nada tem a ver com aquela que experienciam.
Intuo que o segredo de JSM está no modo de como trata os actores. Não são mão-de-obra barata, não são peça de mecânica, não são carne descartável. De resto, a sua sensibilidade visual leva-nos a ansiar que a peça pare, para usufruirmos de determinadas imagens. Creio que JSM inaugura com esta peça (os actores são de uma entrega extraordinária e rara, sem excepção – mas seria ingrato não reconhecer a seiva vibrante das interpretações de Catarina Wallenstein e Elmano Sancho) o fim da era moderna (não nos iludamos: a contemporaneidade portuguesa esta descabelada, não apresenta nada de novo desde a "bica Expresso" – nem sequer se digna a pôr um pouco de tinta na casinha de madeira do jardim, raios!); instaura algo de novo no modo como pensa o seu teatro (penso que podemos falar “do” teatro de JSM).
E porque parece que estou a falar de coisas antigas, porque essenciais (e isso é que é sempre novo – mas o essencial aos olhos de hoje, não se vê – tal como o disseram Saint-Exupéry no "Principezinho" e Saramago em "Ensaio sobre a Cegueira"), termino: é belo. Estabelece contacto com aquilo que é a nossa mais subtil percepção do mundo. Pois: quem faz do teatro o amor, não brinca com ele.
Obrigada a todos.
O amor importa,
ResponderExcluirintuído, vivido e dito assim.
Obrigados, nós, a este Sentir