segunda-feira, 21 de novembro de 2011

A propósito de "Teatro à Portuguesa" de Vasco Pulido Valente

Custódia Gallego na peça "Vulcão", de Abel Neves

Em nome dos milhares de profissionais portugueses do teatro (dos dramaturgos aos assistentes de sala), expresso o meu agradecimento pelo extraordinário artigo de retórica (“Teatro à Portuguesa”, Público, 18 de Nov.) que nos levou a todos a voltar a questionar o teatro em Portugal. A sua frase “em 37 anos não apareceu uma única peça decente de dramaturgia portuguesa”, levantou algo que deveria ter sido obviado há muito: então não temos Maria Velho da Costa, Jaime Rocha, Armando Nascimento Rosa (que até foi alvo da cerimónia de entrega do Prémio Bernardo Santareno – o tal que escrevia para teatro – no fim-de-semana a seguir à crónica do Prof.), Luísa Costa Gomes, Teresa Rita Lopes, Abel Neves, Carlos Pessoa (perdoem-me os dramaturgos restantes que não nomeio apenas por limitação de espaço; mas as pessoas que dedicaram a sua vida ao estudo do teatro em Portugal, como Maria João Brilhante, Eugénia Vasques, Maria Helena Serôdio, Paulo Filipe Monteiro – perdoem-me a omissão dos outros – sabem de quem estou a falar)...? Temos e com trabalhos reconhecidos no Brasil, nos EUA e por toda a Europa…De resto, soube bem o enaltecimento da nossa dramaturgia vindo de Salamanca, através da criação da Biblioteca Luso Espanhola de Teatro.
O artigo do Prof. Vasco Pulido Valente, que nos diz que muito bom teatro se fez antes do 25 de Abril (e com toda a razão – pena é que não o tivéssemos visto por razões que não vale a pena referir), presta com as suas palavras experientes não só um tributo ao grande deus Dioniso, como a todos os homens e mulheres do teatro contemporâneo, o qual se inscreve ainda nas linhas do Modernismo, cujo nome cimeiro, o de Fernando Pessoa, é o de um poeta dramático (“o que eu sou é dramaturgo”, disse), a par de Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros e uma gigantesca plêiade de intelectuais que acreditou (ingénuos!) que Portugal poderia ainda um dia vir a ser um “país asseado”, através do Teatro. E não é que as palavras entre as aspas nos fazem lembrar o Mário Viegas a dizer o Manifesto do Almada?
Se o Mário fosse vivo, não duvido que estaria neste momento a pedir aos profissionais do teatro português que seguissem o meu exemplo, e que no final de cada peça gritassem “Viva VPV” por admitir que há “Teatro à portuguesa” (cujo título até o teatro de revista enaltece!) E mais: tal como o Almada em relação à estátua de Camões (que deveria ser a de Júlio Dantas), também nós – se não fôssemos tão dados à inveja e à ignorância – deveríamos ter a coragem de dizer que o Teatro Nacional só se chama D. Maria II, porque o VPV assim o permitiu! Se fôssemos justos deveríamos saber que deveria chamar-se Teatro Nacional Vasco Pulido Valente! E Produções Vasco Pulido Valente! E projectores VPV! E sistemas de som vpv stereo! E faça-se uma peça épica apenas com o nome Vasco (mas imitando a Odisseia!!) E saiba o Vasco que todos os profissionais do teatro português, se lembram do tempo em que era Secretário de Estado da Cultura e do cuidado especial que tinha com os actores, encenadores e directores, quando  com eles reunia e se apresentava em tal pose, com palavras tão cuidadas, com cenários tão concebidos…  que nunca restou dúvida a ninguém, que o Vasco só não foi um extraordinário actor, por piedade de quem vive da “ilusão”. Tivesse sido Vasco Pulido Valente conselheiro da rainha D. Leonor, que nunca aquele ourives mulherengo dos Autos teria entrado em tais reais aposentos!
Parabéns ao Vasco, parabéns… (      !)

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