A mais recente produção da ACTA - A Companhia de Teatro do Algarve, é uma surpresa contagiante. Perdeu algumas das marcas naturalistas que as suas produções tinham recentemente, em boa parte devido ao tipo de público para a qual está particularmente vocacionada, e apresenta-nos um revisitar do caso passional de D. Pedro e D. Inês numa sucessão de imagens poderosamente eloquentes.
Sombras, ressonâncias lentas de movimento, deslizar de imprecisões, são marcas que o espectador reserva deste espectáculo que tem na sua encenação a assinatura do polaco Leszek Mądzik, aqui fortemente inspirado neste olhar sobre um mito amoroso, de resto, nada incomum.
Com influências de Butô, vemos naquelas personagens o encanto que nos oferece o teatro de marionetas japonês. Logo de início, aquela história levou-me para uma lenda passional do teatro japonês, que o célebre Takeshi Kitano tão bem adaptou ao seu extraordinário filme, "Dolls".
Porém, há um ponto a favor de Leszek Madzik quanto ao tratamento deste tipo de lendas - é que Kitano peca por excesso de sentimentalismo, ao passo que o encenador polaco salva-nos dessa angústia, não deixando de nos oferecer um impacto cumulativo de alguma comoção através de uma poesia visual meticulosa.
Tal como em "Dolls", a nova produção, tão excelentemente escolhida por Luís Vicente sobre estes malfadados amantes portugueses (ou quase) envergam figurinos cerimoniais (extraordinários - há muito que não sentia figurinos tão "falantes") e são acompanhados por música grave e destituída de excessiva melodia, como convém - ou não tivesse a "alma" de Zé Eduardo.
Este espectáculo deveria ser gravado e partilhado em DVD com quem não o puder ver, para que possa não só usufruir de tão sublime momento, como analisar as transfigurações de temas tão caros ao teatro, como a devoção, o sacrifício e o amor avassalador como acto extremista, insensato e irracional que é. Isto, por um lado; por outro, para repensar no valor da emoção e seus limites numa produção teatral: é urgente salvar o espectador da angústia ou das gargalhada alarve, ou de outros estados que se aproximem de extremos nervosos e emocionais.
Contudo, dois pontos a assinalar, a título pessoal, que não me agradaram: a omnipresença da música é contraproducente, sendo que no momento em que irradia a voz humana, qualquer som que se misture, causa ruído estético. Neste espectáculo, enfureci-me quando a música se sobrepunha à voz sentencial de luto de Liza Veiga, quando interferia na cena - e feria o momento. Sendo tão eloquentes as imagens, o espectador necessita de silêncios, necessita de tempo para reconstituir as suas fruições estéticas e as suas próprias forças anímicas (caso contrário, corre o risco de adormecer por extenuação de alma!). Outro ponto que se tornou notório, foi a falta de concentração de alguns actores. Creio que depois deste trabalho, os actores da ACTA jamais serão os mesmos. Nunca os vi em tão aturados e belos movimentos. Contudo, à menor distracção, o movimento deixa de ser não-consciente (como exige um espectáculo desta natureza) para se tornar cultural. E isso, foi muito notório especialmente no actor que envergou o papel de algoz: joelhos, coluna vertebral e pulsos, muito ocidentais, muito portugueses; os pés não são para bater no palco quando o movimento não o exige, nem as ancas têm sentido em movimentos de corpo, em espectáculos de natureza, mais ou menos próxima, do Butô.
Quando refiro que os actores, jamais serão os mesmos, penso que podemos aplicar a frase a Tânia Silva - nesta produção, deixou de ser uma menina (digo-o com todo o respeito ao seu percurso e idade); apesar de alguns gestos denotarem uma sensualidade desnecessária - usou gestos redondos, demasiado rápidos e de uma amplitude típica do ocidente, como tal, com ressonâncias incertas; mas isso foi uma desconcentração muito breve - aquando da sua morte, impôs-se não só pela sua notória juventude, como pela segurança corporal e pela respiração certa e rítmica que não deixa qualquer olhar (pelo menos que esteja habituado a outras estéticas que não as contemporâneas ocidentais) indiferente.
Parabéns a toda a equipa!
O que diz Luísa Monteiro
Nem sempre diz o que pensa e nem sempre pensa o que diz: apenas pelo capricho do fingimento. Pensa sobre Literatura, sobre Teatro, sobre Cinema e sobre Filosofia. Mas nem sempre diz. Diz às vezes apenas para ocultar o que pensa.
segunda-feira, 28 de novembro de 2011
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
A propósito de "Teatro à Portuguesa" de Vasco Pulido Valente
Custódia Gallego na peça "Vulcão", de Abel Neves
O artigo do Prof. Vasco Pulido Valente, que nos diz que muito bom teatro se fez antes do 25 de Abril (e com toda a razão – pena é que não o tivéssemos visto por razões que não vale a pena referir), presta com as suas palavras experientes não só um tributo ao grande deus Dioniso, como a todos os homens e mulheres do teatro contemporâneo, o qual se inscreve ainda nas linhas do Modernismo, cujo nome cimeiro, o de Fernando Pessoa, é o de um poeta dramático (“o que eu sou é dramaturgo”, disse), a par de Mário de Sá-Carneiro, Almada Negreiros e uma gigantesca plêiade de intelectuais que acreditou (ingénuos!) que Portugal poderia ainda um dia vir a ser um “país asseado”, através do Teatro. E não é que as palavras entre as aspas nos fazem lembrar o Mário Viegas a dizer o Manifesto do Almada?
Se o Mário fosse vivo, não duvido que estaria neste momento a pedir aos profissionais do teatro português que seguissem o meu exemplo, e que no final de cada peça gritassem “Viva VPV” por admitir que há “Teatro à portuguesa” (cujo título até o teatro de revista enaltece!) E mais: tal como o Almada em relação à estátua de Camões (que deveria ser a de Júlio Dantas), também nós – se não fôssemos tão dados à inveja e à ignorância – deveríamos ter a coragem de dizer que o Teatro Nacional só se chama D. Maria II, porque o VPV assim o permitiu! Se fôssemos justos deveríamos saber que deveria chamar-se Teatro Nacional Vasco Pulido Valente! E Produções Vasco Pulido Valente! E projectores VPV! E sistemas de som vpv stereo! E faça-se uma peça épica apenas com o nome Vasco (mas imitando a Odisseia!!) E saiba o Vasco que todos os profissionais do teatro português, se lembram do tempo em que era Secretário de Estado da Cultura e do cuidado especial que tinha com os actores, encenadores e directores, quando com eles reunia e se apresentava em tal pose, com palavras tão cuidadas, com cenários tão concebidos… que nunca restou dúvida a ninguém, que o Vasco só não foi um extraordinário actor, por piedade de quem vive da “ilusão”. Tivesse sido Vasco Pulido Valente conselheiro da rainha D. Leonor, que nunca aquele ourives mulherengo dos Autos teria entrado em tais reais aposentos!
Parabéns ao Vasco, parabéns… ( !)
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
"Não se brinca com o Amor": uma produção seminal
(ou como Jorge Silva Melo se confessa como filho do século)
Estava eu longe de imaginar de ver alguma vez a peça (digo “a” porque é de facto, a mais interessante de Musset, pois nela entrevemos o seu amor intempestivo com George Sand) de Alfred de Musset (1810-1875), quando o meu querido Professor Álvaro Manuel Machado o referia vezes sem conta a propósito de Romantismo, nos seminários de Literatura Comparada da Nova, onde nos interessava especialmente os "Contos de Espanha e Itália".
Agora, Jorge Silva Melo oferece-nos este texto magnífico numa altura em que inaugura casa nova (sem cheiro a cantina velha nem a tinta de reprografia), num Príncipe Real descabelado: cortaram-lhe as árvores e os passeios não são à portuguesa. Porquê esta peça agora e ali? E porque é que questiono?
Como ninguém me responde, faço como na infância: intuo. Vamos à primeira fase de argumentos: JSM é um dos homens mais inteligentes e cultos do país; Alfred de Musset rompeu com os moldes da Escola Clássica francesa de teatro; o Príncipe Real está a perder a sua marca romântica (aliás, fiquei a saber que havia ali um salão de donzelas para convívio, frequentado regularmente por Cesário Verde, local onde escreveu alguns dos seus poemas, nomeadamente, "Piquenique"), o teatro português perdeu relevância estética… Segunda fase: aquilo a que chamam teatro contemporâneo, de carácter híbrido, "desartificado" (o termo é de Chomsky; significa que já nem sequer é não-arte), está paulatinamente a perder a sua substância estética: tal como o Príncipe Real; "A confissão de um filho do século", de Musset, é um prolongado amuo contra o seu tempo, um profundo pesar pela leviandade com que se usa a palavra e o pensamento: tal como JSM sugeriu numa recente conferência de imprensa; o amor é infantil, pelo que nunca deverá submeter-se a compromissos (as crianças não assinam contratos nem têm filhos): tal como acontece nos dias de hoje e que muita discussão tem gerado.
O amor importa, então. Importa também conservar esta marca de loucura dos seres humanos, porque é pela loucura que agimos e somos, de facto.
Assim, não podemos refutar a primeira premissa: JSM é um dos homens mais inteligentes e cultos do país; nem as seguintes. Interessa-me a última: a relevância do teatro para a nossa época, para poder confessar que o que tenho visto, na maioria, nos mais recentes anos, angustia-me. Não pela mistura de linguagens, não pela vaidade de alguns actores em palco, não pelos subsídios atribuídos a alguns canastrões, não pela escolha das peças, não pelo anseio em tornarem-se poder, mas pela abordagem serôdia e burguesa que fazem da arte de representar: esvaziam-na de sentido. Isto, quando não “importam” êxitos de outros países para entreterem um público que raramente sai de Lisboa e que raramente sabe dizer onde fica a Biblioteca Nacional. E que gosta muito de barulho, de velocidade e de uma vida mental que nada tem a ver com aquela que experienciam.
Intuo que o segredo de JSM está no modo de como trata os actores. Não são mão-de-obra barata, não são peça de mecânica, não são carne descartável. De resto, a sua sensibilidade visual leva-nos a ansiar que a peça pare, para usufruirmos de determinadas imagens. Creio que JSM inaugura com esta peça (os actores são de uma entrega extraordinária e rara, sem excepção – mas seria ingrato não reconhecer a seiva vibrante das interpretações de Catarina Wallenstein e Elmano Sancho) o fim da era moderna (não nos iludamos: a contemporaneidade portuguesa esta descabelada, não apresenta nada de novo desde a "bica Expresso" – nem sequer se digna a pôr um pouco de tinta na casinha de madeira do jardim, raios!); instaura algo de novo no modo como pensa o seu teatro (penso que podemos falar “do” teatro de JSM).
E porque parece que estou a falar de coisas antigas, porque essenciais (e isso é que é sempre novo – mas o essencial aos olhos de hoje, não se vê – tal como o disseram Saint-Exupéry no "Principezinho" e Saramago em "Ensaio sobre a Cegueira"), termino: é belo. Estabelece contacto com aquilo que é a nossa mais subtil percepção do mundo. Pois: quem faz do teatro o amor, não brinca com ele.
Obrigada a todos.
Estava eu longe de imaginar de ver alguma vez a peça (digo “a” porque é de facto, a mais interessante de Musset, pois nela entrevemos o seu amor intempestivo com George Sand) de Alfred de Musset (1810-1875), quando o meu querido Professor Álvaro Manuel Machado o referia vezes sem conta a propósito de Romantismo, nos seminários de Literatura Comparada da Nova, onde nos interessava especialmente os "Contos de Espanha e Itália".
Agora, Jorge Silva Melo oferece-nos este texto magnífico numa altura em que inaugura casa nova (sem cheiro a cantina velha nem a tinta de reprografia), num Príncipe Real descabelado: cortaram-lhe as árvores e os passeios não são à portuguesa. Porquê esta peça agora e ali? E porque é que questiono?
Como ninguém me responde, faço como na infância: intuo. Vamos à primeira fase de argumentos: JSM é um dos homens mais inteligentes e cultos do país; Alfred de Musset rompeu com os moldes da Escola Clássica francesa de teatro; o Príncipe Real está a perder a sua marca romântica (aliás, fiquei a saber que havia ali um salão de donzelas para convívio, frequentado regularmente por Cesário Verde, local onde escreveu alguns dos seus poemas, nomeadamente, "Piquenique"), o teatro português perdeu relevância estética… Segunda fase: aquilo a que chamam teatro contemporâneo, de carácter híbrido, "desartificado" (o termo é de Chomsky; significa que já nem sequer é não-arte), está paulatinamente a perder a sua substância estética: tal como o Príncipe Real; "A confissão de um filho do século", de Musset, é um prolongado amuo contra o seu tempo, um profundo pesar pela leviandade com que se usa a palavra e o pensamento: tal como JSM sugeriu numa recente conferência de imprensa; o amor é infantil, pelo que nunca deverá submeter-se a compromissos (as crianças não assinam contratos nem têm filhos): tal como acontece nos dias de hoje e que muita discussão tem gerado.
O amor importa, então. Importa também conservar esta marca de loucura dos seres humanos, porque é pela loucura que agimos e somos, de facto.
Assim, não podemos refutar a primeira premissa: JSM é um dos homens mais inteligentes e cultos do país; nem as seguintes. Interessa-me a última: a relevância do teatro para a nossa época, para poder confessar que o que tenho visto, na maioria, nos mais recentes anos, angustia-me. Não pela mistura de linguagens, não pela vaidade de alguns actores em palco, não pelos subsídios atribuídos a alguns canastrões, não pela escolha das peças, não pelo anseio em tornarem-se poder, mas pela abordagem serôdia e burguesa que fazem da arte de representar: esvaziam-na de sentido. Isto, quando não “importam” êxitos de outros países para entreterem um público que raramente sai de Lisboa e que raramente sabe dizer onde fica a Biblioteca Nacional. E que gosta muito de barulho, de velocidade e de uma vida mental que nada tem a ver com aquela que experienciam.
Intuo que o segredo de JSM está no modo de como trata os actores. Não são mão-de-obra barata, não são peça de mecânica, não são carne descartável. De resto, a sua sensibilidade visual leva-nos a ansiar que a peça pare, para usufruirmos de determinadas imagens. Creio que JSM inaugura com esta peça (os actores são de uma entrega extraordinária e rara, sem excepção – mas seria ingrato não reconhecer a seiva vibrante das interpretações de Catarina Wallenstein e Elmano Sancho) o fim da era moderna (não nos iludamos: a contemporaneidade portuguesa esta descabelada, não apresenta nada de novo desde a "bica Expresso" – nem sequer se digna a pôr um pouco de tinta na casinha de madeira do jardim, raios!); instaura algo de novo no modo como pensa o seu teatro (penso que podemos falar “do” teatro de JSM).
E porque parece que estou a falar de coisas antigas, porque essenciais (e isso é que é sempre novo – mas o essencial aos olhos de hoje, não se vê – tal como o disseram Saint-Exupéry no "Principezinho" e Saramago em "Ensaio sobre a Cegueira"), termino: é belo. Estabelece contacto com aquilo que é a nossa mais subtil percepção do mundo. Pois: quem faz do teatro o amor, não brinca com ele.
Obrigada a todos.
Do sangue ou da sanguessuga?
"Sangue do meu sangue"
João Canijo
"Sangue do meu sangue" de João Canijo é, segundo o realizador, sobre "o amor incondicional". Não. Só os deuses amam incondicionalmente - e isso, porque não existem. Se a mãe amasse incondicionalmente a filha, morderia o segredo, não impediria que se concretizasse um amor correspondido. Referiu esta noite no IPJ de Faro, que procurou um ambiente de pessoas simples (bairro Padre Cruz), sem tempo para grandes pensamentos, de palavras viscerais, para mostrar que este tipo de amor também existe nestes espaços. Não. Jorge Palma retrata bem melhor esse hipótetico e incondicional sentimento na canção "No bairro do amor". O realizador disse ainda, a propósito do incesto, que é sempre Electra quem o move - o mito, portanto, a lenda contada por Eurípides e Sófocles. Também não. Até porque os gregos apenas se limitaram a copiar os egípcios, tal como lhes fizeram posteriormente os romanos. Quando muito, poderemos ter no filme um Édipo feminino (bom, espero que ninguém esteja a confundir estes mitos com os complexos freudianos!). Este filme vale, isso sim (e muito), como documentário sobre o processo criativo no cinema e no teatro. Sob este aspecto, está supremo, interessantíssimo. Como fabulosas estão as imagens, os enquadramentos, o movimento, o som, enfim, toda a parte técnica, e, sobretudo, as interpretações; nomeadamente a de Rita Blanco e de Cleia Almeida. Apenas um senão: os actores deixam entrever largamente o seu lado burguês de actores (coisa que os putos dos bairros esquecidos de agora, sequer sonham o que é). Mas só desejo boa sorte para o filme
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