segunda-feira, 28 de novembro de 2011

"Ardente", uma combustão apaixonante

A mais recente produção da ACTA - A Companhia de Teatro do Algarve, é uma surpresa contagiante. Perdeu algumas das marcas naturalistas que as suas produções tinham recentemente, em boa parte devido ao tipo de público para a qual está particularmente vocacionada, e apresenta-nos um revisitar do caso passional de D. Pedro e D. Inês numa sucessão de imagens poderosamente eloquentes. 
Sombras, ressonâncias lentas de movimento, deslizar de imprecisões, são marcas que o espectador reserva deste espectáculo que tem na sua encenação a assinatura do polaco Leszek Mądzik, aqui fortemente inspirado neste olhar sobre um mito amoroso, de resto, nada incomum.
Com influências de Butô, vemos naquelas personagens o encanto que nos oferece o teatro de marionetas japonês. Logo de início, aquela história levou-me para uma lenda passional do teatro japonês, que o célebre Takeshi Kitano tão bem adaptou ao seu extraordinário filme, "Dolls".
Porém, há um ponto a favor de Leszek Madzik quanto ao tratamento deste tipo de lendas - é que Kitano peca por excesso de sentimentalismo, ao passo que o encenador polaco salva-nos dessa angústia, não deixando de nos oferecer um impacto cumulativo de alguma comoção através de uma poesia visual meticulosa. 
Tal como em "Dolls", a nova produção, tão excelentemente escolhida por Luís Vicente sobre estes malfadados amantes portugueses (ou quase) envergam figurinos cerimoniais (extraordinários - há muito que não sentia figurinos tão "falantes") e são acompanhados por música grave e destituída de excessiva melodia, como convém - ou não tivesse a "alma" de Zé Eduardo.
Este espectáculo deveria ser gravado e partilhado em DVD com quem não o puder ver, para que possa não só usufruir de tão sublime momento, como analisar as transfigurações de temas tão caros ao teatro, como a devoção, o sacrifício e o amor avassalador como acto extremista, insensato e irracional que é. Isto, por um lado; por outro, para repensar no valor da emoção e seus limites numa produção teatral: é urgente salvar o espectador da angústia ou das gargalhada alarve, ou de outros estados que se aproximem de extremos nervosos e emocionais.
Contudo, dois pontos a assinalar, a título pessoal, que não me agradaram: a omnipresença da música é contraproducente, sendo que no momento em que irradia a voz humana, qualquer som que se misture, causa ruído estético. Neste espectáculo, enfureci-me quando a música se sobrepunha à voz sentencial de luto de Liza Veiga, quando interferia na cena - e feria o momento. Sendo tão eloquentes as imagens, o espectador necessita de silêncios, necessita de tempo para reconstituir as suas fruições estéticas e as suas próprias forças anímicas (caso contrário, corre o risco de adormecer por extenuação de alma!). Outro ponto que se tornou notório, foi a falta de concentração de alguns actores. Creio que depois deste trabalho, os actores da ACTA jamais serão os mesmos. Nunca os vi em tão aturados e belos movimentos. Contudo, à menor distracção, o movimento deixa de ser não-consciente (como exige um espectáculo desta natureza) para se tornar cultural. E isso, foi muito notório especialmente no actor que envergou o papel de algoz: joelhos, coluna vertebral e pulsos, muito ocidentais, muito portugueses; os pés não são para bater no palco quando o movimento não o exige, nem as ancas têm sentido em movimentos de corpo, em espectáculos de natureza, mais ou menos próxima, do Butô. 
Quando refiro que os actores, jamais serão os mesmos, penso que podemos aplicar a frase a Tânia Silva - nesta produção, deixou de ser uma menina (digo-o com todo o respeito ao seu percurso e idade); apesar de alguns gestos denotarem uma sensualidade desnecessária - usou gestos redondos, demasiado rápidos e de uma amplitude típica do ocidente, como tal, com ressonâncias incertas; mas isso foi uma desconcentração muito breve - aquando da sua morte, impôs-se não só pela sua notória juventude, como pela segurança corporal e pela respiração certa e rítmica que não deixa qualquer olhar (pelo menos que esteja habituado a outras estéticas que não as contemporâneas ocidentais) indiferente.
Parabéns a toda a equipa! 

2 comentários:

  1. "Este espectáculo deveria ser gravado e partilhado em DVD com quem não o puder ver, para que possa não só usufruir de tão sublime momento, como analisar as transfigurações de temas tão caros ao teatro" Realmente tenho assistido a espetáculos em que senti que era uma limitação enorme não o dar a conhecer a outros públicos. São momentos únicos e sublimes. Valia a pena eternizá-los em vídeo. Crítica admirável.

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  2. Após Momentos de rara beleza, todos se transformam:os Criadores, o público, o leitor...

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