"Sangue do meu sangue"
João Canijo
"Sangue do meu sangue" de João Canijo é, segundo o realizador, sobre "o amor incondicional". Não. Só os deuses amam incondicionalmente - e isso, porque não existem. Se a mãe amasse incondicionalmente a filha, morderia o segredo, não impediria que se concretizasse um amor correspondido. Referiu esta noite no IPJ de Faro, que procurou um ambiente de pessoas simples (bairro Padre Cruz), sem tempo para grandes pensamentos, de palavras viscerais, para mostrar que este tipo de amor também existe nestes espaços. Não. Jorge Palma retrata bem melhor esse hipótetico e incondicional sentimento na canção "No bairro do amor". O realizador disse ainda, a propósito do incesto, que é sempre Electra quem o move - o mito, portanto, a lenda contada por Eurípides e Sófocles. Também não. Até porque os gregos apenas se limitaram a copiar os egípcios, tal como lhes fizeram posteriormente os romanos. Quando muito, poderemos ter no filme um Édipo feminino (bom, espero que ninguém esteja a confundir estes mitos com os complexos freudianos!). Este filme vale, isso sim (e muito), como documentário sobre o processo criativo no cinema e no teatro. Sob este aspecto, está supremo, interessantíssimo. Como fabulosas estão as imagens, os enquadramentos, o movimento, o som, enfim, toda a parte técnica, e, sobretudo, as interpretações; nomeadamente a de Rita Blanco e de Cleia Almeida. Apenas um senão: os actores deixam entrever largamente o seu lado burguês de actores (coisa que os putos dos bairros esquecidos de agora, sequer sonham o que é). Mas só desejo boa sorte para o filme

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